A combinação de dívida pública global elevada, juros estruturalmente mais altos, ganhos de produtividade limitados e um nível de otimismo considerado excessivo em alguns mercados aumenta a probabilidade de um ajuste de preços nas bolsas em 2026, especialmente nos Estados Unidos. A avaliação, após o forte movimento de alta observado nos mercados em 2025, é de Roberto Campos Neto, ex-presidente do Banco Central e hoje vice-chairman e economista-chefe do Nubank.

No terceiro episódio do videocast Perspectivas, parceria entre InvestNews e Nubank, Campos Neto analisa o cenário macroeconômico brasileiro e internacional e seus desdobramentos para os mercados financeiros.

Um dos principais fatores de preocupação, segundo ele, é o crescimento da dívida pública global, que chegou a cerca de 105% do PIB mundial durante a pandemia, não retornou aos níveis esperados e agora se aproxima novamente das máximas históricas. “A gente imaginava que isso ia voltar rapidamente para 85% do PIB, mas estamos em torno de 100%, quase 101%, e subindo”, afirma.

Esse quadro decorre tanto da dificuldade política de retirar estímulos criados durante a pandemia — muitos deles transformados em gastos estruturais — quanto do surgimento de novas pressões fiscais. Entre elas estão o envelhecimento da população, o aumento dos gastos com defesa em um ambiente geopolítico mais instável e o alto custo da transição energética. O resultado é um cenário de déficits persistentes em vários países e de baixa produtividade, com exceção de alguns setores da economia americana.

Enquanto esse desequilíbrio não se traduzir em um choque de produtividade ou em ajustes fiscais críveis, os mercados podem estar subestimando riscos. “Os governos estão numa situação confortável hoje, mas em algum momento vai começar a ter um dreno de liquidez por elevação do prêmio de risco”, diz Campos Neto. Na prática, isso significa que os investidores tendem a exigir retornos mais altos para financiar a dívida pública, o que pode tornar o financiamento mais difícil e caro. Esse movimento costuma atingir primeiro os países emergentes, mas não deve poupar as economias desenvolvidas.

EUA: IA é motor de valorização, mas preços estão esticados

Os Estados Unidos seguem demonstrando a força de seu mercado de capitais, que atrai empresas do mundo todo, além do protagonismo no financiamento da inovação. Ainda assim, há sinais que merecem atenção, como um certo enfraquecimento do dólar e a crescente busca por ativos como ouro, inclusive por pessoas físicas. “Tem gente comprando barras físicas em supermercado. Isso mostra uma certa descrença de longo prazo sobre como os governos estão tratando suas moedas”, afirma.

No mercado acionário americano, Campos Neto vê espaço para correções. Embora reconheça o papel da inteligência artificial como motor de valorização recente, ele pondera que as expectativas embutidas nos preços são elevadas. “O que está implícito em termos de crescimento de resultados em alguns setores está bastante alto”, diz, acrescentando que começam a surgir questionamentos sobre a capacidade de retorno dos investimentos bilionários feitos em IA.

“Quando eu olho a trajetória da dívida [pública global] e adiciono isso à precificação que vejo hoje em alguns mercados, acho que a gente pode ter uma correção, sim — e ela é mais provável em 2026”, conclui.

Brasil deve crescer 2% em 2026, mas terá ano de volatilidade

Para o Brasil, Campos Neto projeta crescimento em torno de 2% em 2026, em um ambiente marcado pelas incertezas naturais de um ano eleitoral. “O principal fator vai ser a volatilidade das eleições”, diz, explicando que o mercado financeiro deverá analisar com atenção as propostas dos candidatos para o ajuste fiscal.

A economia brasileira encerrou 2025 resiliente, com mercado de trabalho aquecido e crédito em expansão, mas com uma inflação que demorou a ceder — fatores que levaram o Banco Central a manter a taxa básica de juros em 15% ao ano.

Segundo o economista, embora a situação fiscal do Brasil não seja pior que a média dos países emergentes, que apresentam déficit primário de 3,8% do PIB, o país enfrenta desafios específicos. “A dívida cresce muito rápido e já é bastante alta. Como a gente tem juros mais elevados e um problema de credibilidade maior, o prêmio de risco acaba sendo maior”, explica.

Ele ressalta, no entanto, que o ambiente externo também terá influência relevante sobre o país. “A volatilidade pode ser ampliada ou reduzida dependendo do cenário internacional. Se tivermos condições favoráveis lá fora, como no último ano, o mercado pode conviver melhor com o debate fiscal.”

Nubank e seus planos de expansão internacional

Apesar da perspectiva de maior volatilidade, Campos Neto afirma que o cenário não altera as expectativas de crescimento do Nubank nem seus planos de expansão internacional. Segundo ele, o modelo de crédito da instituição já foi testado em períodos mais turbulentos. “Eu diria que o Nubank está bem preparado para enfrentar isso”, diz.

A instituição encerra 2025 com mais de 127 milhões de clientes entre Brasil, México e Colômbia e tem como um de seus principais projetos para 2026 a expansão para os Estados Unidos. O pedido de licença bancária no país foi protocolado no ano passado.